Após entrevista de Aidar, neto de Juvenal pede demissão do São Paulo

Por Bernardo Itri

Após a entrevista do presidente Carlos Miguel Aidar, publicada hoje na Folha, João Paulo Juvêncio, neto de Juvenal Juvêncio, pediu demissão do São Paulo. João Paulo era diretor-adjunto de finanças e apoiou a candidatura de Aidar.

João Paulo, que também é filho de Marco Aurélio Cunha, enviou uma mensagem para Aidar hoje pela manhã lamentando as declarações contra a gestão de seu avô e avisando que está deixando o cargo.

“Ele me enviou um ‘WhatsApp pedindo a demissão. Eu lamentei porque ele é da área financeira e sabe que os números [da dívida] são verdadeiros”, afirmou Aidar à coluna.

A entrevista, na qual Aidar critica veementemente o cenário em que encontrou o São Paulo, foi o estopim para a demissão. Nela, o atual presidente afirmou que encontrou o São Paulo muito pior do que imaginava e que o clube “parou no tempo.

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Veja abaixo trechos da entrevista em que Aidar critica a gestão de Juvenal.

Gestão sem controle

Aidar critica a falta de organização que encontrou no clube. “Quando era candidato, via o estilo com o qual o São Paulo era gerido. Me levava a uma preocupação: de gestão centralizada, não participativa, sem modelo de mecanismos de controle. Pedi o organograma de controle, não tem. Me deixou bastante aflito.

Encontrei o São Paulo muito pior do que imaginava, acostumado a benesses, com pessoas acostumadas a vantagens. Era comum ver diretor andando pelo clube com pacote de ingressos na mão para show, para jogo, distribuindo para sócios.

Viagens para diretores, conselheiros, passagens, hospedagens. Eu vendi 20 carros. Serviam pra quê? Para buscar pessoas. Diretor com carro e motorista por conta do clube. Meu carro está aí na porta, eu dirijo meu carro. O São Paulo parou no tempo.”

Dívida e milagre

O cartola relata que paga mensalmente R$ 2,3 milhões de juros de dívidas bancárias e que “está fazendo milagre”.

“Peguei o São Paulo [em abril] com R$ 109 milhões de dívida bancária. Em julho, tenho R$ 131 milhões de dívida. Aumentei R$ 22 milhões da dívida, que é a contratação do Kardec e imposto sobre ela. Vou compensar agora. Vou receber 5,4 milhões de euros pelas vendas de Douglas e Lucas Evangelista.

O São Paulo é um clube viável? É. Mas gastou mais do que podia. Eu estou fazendo milagre. Pago R$ 2,3 milhões por mês de juros bancários. Não é fácil gerir o São Paulo de hoje. Porque, não bastasse tudo isso, ainda tenho fogo amigo. Até o fim do ano que vem eu equilibro as finanças do São Paulo. Mas disputando título porque eu não posso vender o time e brigar para não cair”.

Estilo folclórico

O presidente faz menção ao estilo de seu antecessor, Juvenal Juvêncio, e o critica.

“Pagar bicho em dinheiro, no vestiário, em saquinho de pão? Acho que não dá mais. Dirigir o clube em duas, três pessoas… O jeito de ele gerir é ultrapassado”.

Contrato surpresa

Sem citar nome, Aidar afirma que um empresário de jogadores que não participou da venda de Lucas Evangelista para a Udinese foi beneficiado na negociação.

“Estou esperando um retorno da Fundação Getúlio Vargas para fazer uma auditoria de contratos. Porque eu não posso ser surpreendido com compromissos que não são conhecidos. Por exemplo, eu descobri, depois que vendi o Lucas Evangelista, que um empresário terá direito a 10% da venda porque ele prestou serviços de avaliação e intermediação para o Lucas, formado na nossa base.”

Demissões

O cartola relata ainda que fez duas demissões no clube e pretende fazer mais.

“Duas demissões, por enquanto. Duas da área de comunicação. O clube está sendo tocado com 950 empregados. O diagnóstico do Instituto Áquila [contratado para avaliar o desempenho do clube e propor um modelo de gestão] diz que o que esses 950 fazem, 95 podem fazer. Por quê? São acomodados, despreparados, não compromissados. Não vou [cortar 90%]. Não adianta cortar e o cara não estar preparado para fazer a dele.”

Categorias de base

O modo como é conduzida a formação de jogadores do São Paulo, no centro de treinamento em Cotia, é outro alvo de crítica -Juvenal Juvêncio é o atual diretor da base, mas Aidar admite que pode tirá-lo do cargo.

“A base deveria produzir mais jogadores. A base meio que se isolou do São Paulo, como se fosse um clube separado. O Juvenal tem que se entrosar mais com a gestão atual porque a base é o futuro do São Paulo. Não dá para contratar um Alan Kardec por semestre. Quando assumi, tinha 320 meninos na base. Cortei para 240. E vai ficar entre 150, 160. Não dá para avaliar 150 moleques todo dia.

Estou dando um tempo maior para ele [Juvenal]. Vou [dar um tempo] até o limite do possível. Não dá para contemporizar numa gestão profissional”.